Contente-se com pouco.


Você está certo em fazer esforço nenhum. Eu mesmo nunca entendi essa necessidade gritante da maioria das pessoas em se dedicar a outras pessoas como se elas pudessem alterar seus eternos estados de solidão e insatisfação internas. Pode encostar a cabeça no sofá e continuar nesse seu relacionamento meia-boca, já que a justificativa é a de que as coisas estão até bem. Você não se desgasta à toa e nem precisa suar a camisa correndo atrás de algo que não importa. Continua levando esse relacionamento-mochila. Que não fede nem cheira. Que não machuca ninguém porque simplesmente não existe. Uma hora o outro vai decidir levantar do sofá e fazer as malas. Mas você não vai sentir nada – porque nunca sentiu. Não é tão ruim assim. Continue lendo

Não se apaixone por mim.


Aos moços de plantão, deixo o meu aviso: é perigoso. E nem falo da conotação sensual que esse reclame pode ter. Desse ar de desafio que estala no céu da boca e os atiça ainda mais. Não tem uma permissão subversiva que pede que vocês avancem. É sincero e cauteloso: não tentem me ganhar em qualquer dimensão romântica que não seja a minha.

É que eu tenho medo – e um certo receio – de feri-los em campo de batalha. Eu sou uma dessas guerras que não foram feitas para serem ganhas. Eu fui feita pra durar até que algum fator externo – que não é você – me fizesse sossegar num marasmo bacana. Continue lendo

Carta a quem já me disse Adeus.


Eu não vou me desculpar pelo lado ruim, nem me perguntar por quantas vezes você pensou em ir embora antes de fazê-lo. Não vou me ater aos rabiscos, aos malfeitos, às partes tortas e a nenhuma dessas coisas que passam pela nossa cabeça assim que somos abandonados. Não vou te culpar por alguma crise de choro ou por alguma cirrose futura, nem espalhar aos quatro ventos alguma história que me torne vítima e tiranize você. Continue lendo

Estupro sentimental.


Dessa vez não tinha eco no banheiro. Não tinha melodia e a boa acústica das paredes não ritmava com a água caindo. Ela sentia um choro baixinho enquanto tentava lavar as marcas dos seios. Enojada. Completamente descrente da qualidade dos homens que a tocaram – e a despiram à força. Entraram em atrito com a pele dela – com as mãos nas coxas e nas panturrilhas. Homens desconhecidos, atribuídos de uma força que só os do signo de marte conseguem ter. Combateram as resistências dela e arrancaram a inocência voluntária que uma mulher tem ao se entregar. Violaram cada mínima parte do corpo dela – porque abusaram da alma. Usaram, jogaram e foram embora. Sem telefonema nos dias seguintes. Continue lendo

Quando a gente se bastava.


Tá ali e não tem como negar. A gente anda procurando alguns bons motivos pra olhar pro lado mais vezes – e se esquecer de quem acompanha a gente. O som sai mais alto da garganta e a voracidade com que as palavras saem já dita uma desordem. A gente não tenta mais remediar a coisa toda. É pra ferir mesmo. Pra culpar o outro e dizer que era pra gente estar aqui abraçado ao invés de sofrer essa revolução inteira na vida. Continue lendo

Por favor.


Por favor, volta aqui e coloca as coisas no lugar. Você saiu e deixou tudo uma bagunça. Eu não tenho empregada – e nem condições – pra limpar isso sozinho. Por favor, não pendura mais a calcinha no chuveiro. Eu sempre acho que ela vai acompanhar uma toalha molhada e uma bronca por ter deixado a tampa do vaso aberta. Mas não. Eu tenho que ficar vagando por aí procurando por alguns farelos e pedaços de mim pra jogar no lixo. É só sujeira e uma linha fina de poeira e cinzas que me dá alergia. Continue lendo

Ensaio sobre ela.


Ela diz que não quer – me quer por perto – na real. Tem essa coisa tímida de baixar os olhos e revelar o mundo quando fecha o sorriso. Não tá bem, dá pra ver de longe. Ela faz represa com as pálpebras, pra não deixar sair nada. Os lábios são pequenos e só Deus sabe como o contorno tracejado deles pode ser pintado de um vinho que ela sabe escolher. Não me diz o que tá acontecendo, e eu insisto. Corre as mãos pela cama tentando tatear alguma coisa que nunca esteve ao seu alcance. O peito tá pesado e a etiqueta do vestido incomoda. Dá pra ver que a alergia ainda não passou quando ela espirra ligeiramente enquanto disfarça o que sente. Ela tem disso de guardar pra sentir sozinha, e não se aguentar. Eu queria mesmo é que ela pulasse na minha frente e tirasse tudo de vez – a roupa e as barreiras. Pra ser só minha. Continue lendo